Nos siga nas redes sociais

Palmares

Construção da barragem de Serro Azul deixará memórias da historia submersas

Engenho Verde, que abrigou líderes da Revolução Praieira, em 1840, ficará encoberto

Avatar

Publicado

Parte da história de Pernambuco está desaparecendo em Palmares, na Zona da Mata Sul. As memórias da Revolução Praieira de 1840, marcada de lutas por liberdade e concessão de direitos, agora se limitam as ruínas encontradas no Engenho Verde. A principal ameaça, no entanto, vem pelas águas. A construção da barragem de Serro Azul, no distrito que leva o mesmo nome, sinaliza a inundação de uma área que supera 800 hectares. A velha casa-grande que abrigou lideranças no passado deve sucumbir pela força imediata da represa. Junto a ela, centenas de moradores e comerciantes vêm sendo obrigados a deixar para trás os laços de toda uma vida. Muitos já partiram. E aos que restam sobram lágrimas e incertezas.

O pesquisador Reinaldo Carneiro Leão, do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP), concentrou estudos sobre o antigo bangalô. “A sua arquitetura é constituída por elementos neoclássicos únicos. Os arcos na fachada, piso ladrilhado e os extensos terraços laterais sempre foram motivo de admiração”, explicou. Segundo ele, o projeto do século 19 foi assinado pelo engenheiro Tibúrcio Magalhães, o mesmo responsável pelo Teatro de Santa Isabel, no Recife. A reportagem foi capa do Jornal Folha de Pernambuco do ultimo dia 13 de fevereiro

Anos depois, a propriedade chegava às mãos do industrial Miguel Dias. “O imóvel já vinha sendo descaracterizado ao longo do tempo. Áreas como as escadarias, a cozinha e o porão passaram por reformas. Tudo parecia contribuir para a sua permanência, o que não se concretizou. Assistimos a uma penosa anulação das nossas raízes”, lamentou.

Triste cenário

A casa-grande agora se resume a um amontoado de pedras, tomada pelo mato. As paredes, com muretas em branco e verde musgo, ainda resistem bravamente. Contudo, o cenário é de destruição. Na majestosa sala de estar, que abrigou mobílias em madeira de lei, tudo deu lugar a pedaços de telhas e muito ferro retorcido. O telhado, em formato de quatro águas, desapareceu. O mesmo é encontrado em quartos e corredores, que já não detêm portas ou janelas. Ao redor, a vizinhança deu lugar a um extremo vazio. E apenas a bica no quintal parece amenizar o clima triste da terra seca. “A água deve chegar até a cumeeira da casa em uma enchente de capacidade máxima. A nossa proposta era de que a habitação pudesse ser reconstituída em um novo local, preservando sua identidade para as gerações futuras”, revelou Leão. 

Solução para conter enchentes

Anunciada, ainda em 2011, a barragem de Serro Azul surgiu como solução para combater as enxurradas na região, bastante vitimada um ano antes. As obras, que deveriam durar apenas 18 meses, seguem em atraso, com investimentos na ordem de R$ 500 milhões. Segundo o Estado, 85% já estariam concluídos. O equipamento terá capacidade para armazenar 303 milhões de metros cúbicos de água, com um paredão de 65 metros de altura e a expectativa de beneficiar diretamente 150 mil pessoas.

O Instituto de Tecnologia de Pernambuco (Itep) chegou a executar um mapeamento no Engenho Verde, com o uso de um scanner a laser. “A ideia era de construir uma maquete tridimensional, analisando as plantas e preservando o espaço antes que a água fizesse tudo desaparecer. Também daríamos andamento a escavações para verificar elementos ocultados no passado”, explicou a arqueóloga Glena Salgado, que admite o projeto está parado.

Medo e incertezas

Nos olhos de seu Antônio Messias, 60 anos, a revolta de quem teve a vida alterada com o início dos trabalhos no reservatório. “Nossas casas foram marcadas, mas nenhum prazo foi definido de quando teríamos que sair. A maioria dos vizinhos, com medo, preferiu ir embora”, revelou, assinalando a aparência de uma vila vazia. Ele conta que a frequência de detonações de explosivos nas rochas criaram rachaduras e deixaram rastros de prejuízos em eletrônicos e veículos. “Era como se estivéssemos sendo expulsos a cada dia”, disparou.

A comerciante Maura Silva, 48, mantém a única mercearia que sobrou no lugarejo. “Os clientes desapareceram e as vendas caíram mais da metade. Até mesmo para repor as mercadorias enfrentamos dificuldades. Com as ruas desertas, a criminalidade só veio a amentar. Tudo aqui é muito triste”, contou, sem esconder as lágrimas.

O ambiente, formado por braços do rio Una, conta com pequenos córregos e formações de cachoeiras. A beleza acaba ofuscada pelo ritmo frenético de caminhões, tratores e um imenso time de operários. Junto às estradas de terra batida e muita poeira, parece se esvair também os sonhos da população. É o caso do agricultor Manoel José, 65, que teve o cultivo bastante prejudicado. “Os acessos foram destruídos e ficamos um bom tempo sem contato com fornecedores. A produção de frutas e verduras, assim como a de cana de açúcar ficou parada. Até hoje vivemos em meio ao prejuízo”, admitiu o idoso, que diz não saber até quando poderá se manter em Serro Azul.

Parte das comunidades, desprovidas de iluminação e saneamento básico, amarga também carências em serviços como saúde, educação e abastecimento. São os chamados arruados, que lutam para se manter de pé. Por lá, a lavagem de roupa é feita no riacho, em meio à brincadeira das crianças. Os cavalos carregam o peso de um dia inteiro de roçado e o pão é oferecido em carros de mão à porta de casa. O clima bucólico também é encontrado na barbearia da família Mota. O negócio passou por gerações e hoje é administrado pelo neto, Adriano, de 36 anos. “Estamos bem do lado da barragem e sentimos que se algo der errado tudo poderá cair sobre nossas cabeças”, revela com simplicidade. Ele afirma que os moradores haviam recebido uma promessa de construção de uma nova vila afastada do equipamento, com pelo menos 70 casas. “Nada foi cumprido”, disparou.

Memórias do passado

As lembranças da velha casa do engenho, com as receitas saborosas preparadas no fogão a lenha, ainda alimentam o imaginário do servidor público Leopoldo Raposo, 67 anos. Ele é trineto do antigo proprietário e, durante a infância, ouvia os bons relatos pela boca da saudosa avó. “Ela se casou na própria capela do engenho. Era um lugar que transpirava paz e tranquilidade, algo que minha mãe sempre comentava. O próprio nome Verde se referia a intensa arborização que existia ao redor”, contou.

Ele reforçou o desejo da família de que as memorias fossem preservadas. “É um assunto que sempre vem à tona quando estamos reunidos. Durante certo tempo até funcionou uma pousada na casa. Era uma forma de aproximação do público com as histórias do lugar. Com o fechamento, tudo foi sendo apagado gradativamente”, acrescentou.

O historiador José Luiz da Mota Menezes avalia que as memórias deixadas em Serro Azul seguem carentes de mais atenção. “Vimos a repetição de velhos erros, quando a chegada do progresso acaba anulando parte da história. Em visitas realizadas observamos que o lugar era bastante rico, indicando a necessidade de mais estudos”, disse. Segundo ele, o engenho pertenceu ao sogro do Capitão Pedro Veloso da Silveira, um dos líderes do movimento de caráter libertário que ocorreu em Pernambuco entre 1848 e 1850. Foi nas suas terras que nasceu o escritor Hermilo Borba Filho, considerado uma referência cultural.

Menezes aponta, ainda, outros registros semelhantes para a construção de grandes reservatórios no Agreste e Sertão. “Em Parnamirim, uma série de casas teve que dar lugar a barragem de Entremontes, causando grande descontentamento. Em Surubim, o mesmo aconteceu para a construção de Jucazinho. Algo maior ocorreu em Ibimirim, quando as obras do Poço da Cruz deram fim a vários povoados”, disse. Os registros históricos ainda dão conta de um grande extravasamento em Canhotinho, a 190 quilômetros do Recife, que arrasou municípios no estado vizinho, Alagoas, a exemplo de União dos Palmares e Branquinha.

Casa-grande de lembranças

As lembranças da casa do Engenho Verde, com as receitas saborosas preparadas no fogão a lenha, ainda alimentam o imaginário do presidente do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), Leopoldo Raposo, 67 anos. Ele é trineto do antigo proprietário e, durante a infância, ouvia os bons relatos pela boca da saudosa avó. “Ela se casou na própria capela do engenho. Era um lugar que transpirava paz e tranquilidade, algo que minha mãe sempre comentava. O próprio nome Verde se referia a intensa arborização que existia ao redor”, contou.

Ele reforçou o desejo da família de que as memórias fossem preservadas. “É um assunto que sempre vem à tona quando estamos reunidos. Durante certo tempo até funcionou uma pousada na casa. Era uma forma de aproximação do público com as histórias do lugar. Com o fechamento, tudo foi sendo apagado gradativamente”, acrescentou.

O historiador José Luiz da Mota Menezes avalia que as memórias deixadas em Serro Azul seguem carentes de mais atenção. “Vimos a repetição de velhos erros, quando a chegada do progresso acaba anulando parte da história. Em visitas realizadas observamos que o lugar era bastante rico, indicando a necessidade de mais estudos”, disse. Segundo ele, o engenho pertenceu ao sogro do Capitão Pedro Veloso da Silveira, um dos líderes do movimento de caráter libertário que ocorreu em Pernambuco entre 1848 e 1850. Foi nas suas terras que nasceu o escritor Hermilo Borba Filho, considerado uma referência cultural.

      Outros casos
    Menezes aponta, ainda, outros registros semelhantes para a construção de grandes reservatórios no Agreste e Sertão. “Em Parnamirim, uma série de casas teve que dar lugar a barragem de Entremontes, causando grande descontentamento. Em Surubim, o mesmo aconteceu para a construção de Jucazinho. Algo maior ocorreu em Ibimirim, quando as obras do Poço da Cruz deram fim a vários povoados”, disse. Os registros históricos revelam, também, um grande extravasamento em Canhotinho, que arrasou municípios no estado vizinho, Alagoas.

Publicidade
Clique para comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Brasil

Infrações leves e médias serão convertidas em advertência

Redação PortalPE10

Publicado

São Paulo- SP, 20/05/2014- Trânsito lento nos dois sentidos da avenida 23 de maio. A prefeitura suspendeu o rodízio de veículos no período da tarde de hoje (20/05), por conta da greve dos motoristas e cobradores que começou hoje.

Motoristas que cometerem infrações de trânsito leves e médias podem ter a punição convertida automaticamente em advertência por escrito segundo as novas regras do Código de Trânsito, sancionadas em outubro pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). As alterações entram em vigor na segunda-feira (12).

Segundo o Contran (Conselho Nacional de Trânsito), órgão responsável pelas normativas de trânsito no país, o motorista que cometer uma infração do tipo não precisará acionar o órgão autuador de trânsito. Com isso, não será necessário pagar a multa, e os pontos na CNH (carteira de motorista) não serão aplicados.

Nas regras atuais, a possibilidade de conversão da multa em advertência já é prevista, mas depende da decisão da autoridade de trânsito a respeito de uma solicitação do motorista.

Agora, será levado em consideração automaticamente qual penalidade será mais educativa, afirma Fábio Karaver, advogado especialista na área de Trânsito e membro da Comissão de Direito do Trânsito da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) em São Paulo.

Para ter direito à advertência por escrito automática, o motorista não pode ter cometido nenhuma outra infração nos últimos 12 meses. Em caso de reincidência em infrações, a multa e os pontos serão aplicados.

“[O motorista] precisa ficar 12 meses sem receber qualquer tipo de multa. Uma vez que a primeira multa leve ou média já tenha sido convertida em advertência, ele não terá esse benefício se cometer alguma infração a mais nesse período”, afirma nota enviada pelo Contran.

Entre as infrações que podem ser convertidas em advertência estão parar na calçada ou sobre faixa de pedestres, classificadas como leves, e exceder em até 20% o limite de velocidade da via ou estacionar na contramão, consideradas médias.

DESCONTO NA MULTA

Outra mudança na aplicação das multas é a possibilidade de realizar pagamentos com desconto. Para isso, o motorista que cometer uma infração tem que optar pelo SNE (Sistema de Notificação Eletrônica) e por não apresentar defesa prévia nem recurso, reconhecendo o cometimento da infração.

Seguindo esses critérios, o condutor pode pagar apenas 60% do valor da multa, em qualquer fase do processo, até o vencimento. Atualmente, já é possível ter desconto de 20% no pagamento caso a multa seja paga antes do vencimento.

O procedimento pode ser realizado pelo aplicativo da CDT (Carteira Digital de Trânsito). De acordo com o Contran, o motorista pode acompanhar, receber e pagar antecipadamente multas pelo sistema e, com isso, garantir o direito aos 40% de desconto.

Advertência por escrito automática

Quem poderá ser beneficiado:
Motoristas que não cometeram nenhuma outra infração de trânsito nos últimos 12 meses
A conversão da multa em advertência será automática para aqueles que se enquadrarem no que diz a lei, sem necessidade de apresentar um recurso ou solicitação formal

Desconto no pagamento
Motorista pagará 60% do valor da multa caso:
– Opte pela notificação pelo SNE (Sistema de Notificação Eletrônica)
– Opte por não apresentar defesa prévia nem recurso, reconhecendo o cometimento da infração

Continuar Lendo

Palmares

Governo dispensa do comando de batalhão da PM coronel que trocou agressões com deputado estadual

PortalPE10 com informações G1

Publicado

A Secretaria de Defesa Social (SDS) dispensou o coronel Alexandre Tavares de Oliveira Silva do comando do 6º Batalhão da Polícia Militar (6º BPM). A decisão foi publicada no Boletim Geral da pasta nesta sexta-feira (9), um dia após o policial militar trocar agressões com o deputado estadual Joel da Harpa (PP).

A confusão entre o militar e o deputado estadual ocorreu durante a vacinação contra a Covid-19 de policiais na sede do Complexo Policial de Jaboatão dos Guararapes, na Estrada da Batalha, no bairro de Prazeres.

As imagens enviadas à reportagem mostram o momento em que os dois se empurram e discutem (veja vídeo acima). O deputado disse que queria entrar no auditório do local, onde estava ocorrendo a vacinação dos policiais, para fiscalizar a imunização, mas o comandante do batalhão não permitiu a entrada.

No vídeo, é possível ouvir o deputado questionando se o policial iria removê-lo do local e a confirmação do comandante. “Vai me tirar?”, perguntou Joel. “Vou”, disse Alexandre. Outros policiais tentam apartar a briga e se colocam em meio aos dois.

Na gravação, Joel da Harpa aparece sem máscara. Ele disse que a proteção caiu do rosto depois de outras tentativas de remoção dele do local. O deputado contou, ainda, que registrou uma queixa contra o policial na Corregedoria da Secretaria de Defesa Social, visando à abertura de um Procedimento Administrativo Disciplinar contra o servidor.

Continuar Lendo

Brasil

STF decide que estados e municípios podem proibir cultos: 9 a 2

PortalPE10 com informações UOL

Publicado

O STF (Supremo Tribunal Federal) formou maioria para manter a decisão do ministro Gilmar Mendes de permitir que estados e municípios proíbam a realização de celebrações religiosas presenciais como forma de conter o avanço da pandemia da Covid-19.

Com isso, na prática, o plenário da corte derruba a decisão do ministro Kassio Nunes Marques que liberava missas e cultos e afirmava que o veto de governadores e prefeitos a esses eventos era inconstitucional.

Ao votar nesta quinta-feira (8), Kassio informou que irá ajustar sua decisão ao entendimento firmado pelo plenário.

Os ministros Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Rosa Weber e Cármen Lúcia votaram para que prevaleça a decisão de Gilmar. O ministro Dias Toffoli, por sua vez, acompanhou a posição de Kassio. O voto dele foi considerado uma surpresa.

O julgamento deve ser concluído ainda nesta quinta.

Continuar Lendo

Mais Lidas

Copyright © 2013 - 2021 PortalPE10. Todos os direitos reservados.