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‘Sem nenhum fator de risco, meu namorado morreu de Covid-19, aos 43 anos’

A advogada Fernanda Credídio, 39 anos, viu o namorado, César Visconti, ser mais uma vítima do coronavírus.

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César veio para minha casa na noite de 18 de março, uma quarta-feira. No dia anterior eu havia dispensado os meus funcionários para que todos trabalhássemos de casa e meus filhos, que também não foram à escola, estavam com o pai. Acompanhávamos a situação pelos noticiários, com especial atenção por conta de um amigo dele que estava internado na época, com suspeita de Covid-19. Nem por um minuto, porém, nos preocupamos com um fato: desde o dia 16, César estava com tosse e havia tido alguns episódios de febre. E nossa tranquilidade não foi por displicência. Quando começou a apresentar esses sintomas, ele foi ao médico. Escolheu uma clínica particular para evitar o ambiente de hospital, supostamente mais perigoso. Lá, a tosse foi diagnosticada como alérgica, talvez decorrente de uma sinusite. E o tratamento indicado foi um antibiótico.

Na semana seguinte, meus filhos viriam da casa do pai para ficar comigo. Eles chegariam na terça-feira e, como a tosse parecia não ceder e passou a ser acompanhada de dores no peito, César achou melhor voltar para a sua casa. Aquela segunda-feira, 23 de março, foi o último dia em que nos vimos pessoalmente, que abracei meu namorado e me despedi sem imaginar o que aconteceria a seguir. Na terça pela manhã, ele resolveu voltar ao médico. Tinha passado a noite em claro pois as dores no peito evoluíram para uma sensação constante de falta de ar, como me relatou enquanto se dirigia para o hospital São Luís, em São Caetano do Sul.

Chegando lá, César foi internado imediatamente na UTI. Ainda assim, ligou me tranquilizando. Disse que seria assim porque havia suspeita de Covid-19 e que somente os casos urgentes estavam sendo testados. Naquela noite ainda nos falamos por vídeo. Ele tinha um cateter no nariz para ajudar a respirar, mas parecia melhor. Pensei em ir até lá, mas nenhuma visita ou acompanhante eram permitidos. A orientação do hospital era que esperássemos por notícias. Eles ligariam informando sobre o estado do paciente, conforme tivessem novidades.

Um dos irmãos do César criou um grupo de whatsapp com o outro irmão deles, eu e Luara. Nos revezávamos na busca por notícias e ali compartilhávamos as atualizações e muita esperança. Afinal, meu namorado não fazia parte de qualquer grupo de risco. Não fumava, não tinha comorbidades como hipertensão e diabetes ou obesidade e completaria 44 anos no dia 3 de abril. Tinha como hobby, pilotar carros em Interlagos.

Na quarta-feira pela manhã, ele me ligou. Havia piorado muito. Tossia tanto, que decidimos nos comunicar apenas por mensagens de texto. A noite havia sido ruim, ele sentia cada vez mais dor no peito falta de ar. Nos falamos pela última vez neste mesmo dia, por volta da hora do almoço, quando César me avisou que ficaria uns dois dias sem dar notícias porque seria entubado. ‘Para melhorar mais rápido’, disse, na tentativa de me tranquilizar. Pediu então que eu não chorasse e que precisava que eu soubesse que, no caso de acontecer o pior, ele queria que suas cinzas fossem jogadas em Interlagos.

Entrei em desespero. Queria me convencer que não havia chance de ele morrer. Me baseava em tudo que tínhamos visto, nas informações divulgadas sobre o tal grupo de risco. Neste dia, o resultado do exame para Covid-19 ainda não havia saído. Mas os pulmões estavam comprometidos em um nível, que todo o tratamento já era como se estivesse confirmado a infecção por coronavírus. Passei a acionar amigos médicos, queira ouvir qualquer coisa que resgatasse a confiança na recuperação dele. Todos me diziam que os procedimentos estavam corretos, tentavam me acalmar pelo fato dele estar em um hospital que tinha boa estrutura, respirador e medicação para tratar seu caso. Mas na segunda-feira seguinte, dia 30 de março, pouco depois de vir a confirmação da doença, César não resistiu e nos deixou.

Lembro de cada detalhe daquele dia. O hospital, que ligava com notícias diariamente, naquela segunda demorou. Por volta de 16h40, comecei a ligar para lá. Primeiro não era atendida. Depois, por duas vezes meu telefonema foi transferido para a UTI, mas lá ninguém atendia também. Manifestei minha preocupação em nosso grupo lá pelas 17h25. Por volta de 18h, Luara recebeu uma ligação do hospital pedindo que um familiar fosse até lá. Como está com uma bebê recém-nascida, ela implorou que dessem alguma informação a mais pois não poderia se deslocar. Disseram então que ele estava com comprometimento sério nos rins e que, mais do que isso, só poderiam informar pessoalmente. Mas ainda achávamos que ele estava vivo. Um dos meus cunhados foi para lá e então soubemos: às 16h50 César tinha morrido.

Não pudemos nos despedir. Não houve velório ou qualquer tipo de rito. Não pude sequer receber um abraço da minha mãe ou de amigos, já que estávamos grudados até o dia em que ele se saiu de casa para não passar o que acreditava ser um resfriado simples para meus filhos, que também estão sofrendo muito. Sou uma potencial transmissora, por assim dizer.

Dói muito, muito, muito mesmo. E fiquei ainda mais abalada quando vi que o caso foi divulgado pela Secretaria da Saúde como se ele tivesse uma doença pré existente, o que não é verdade. Muitos perguntam se acho que estou infectada. E sou sincera. Acho muito improvável não ter pego também. Tentando encontrar explicações para tudo, penso que talvez seja o fato de tomar vitaminas, fazer exercícios… Essas coisas podem ter feito alguma diferença para mim. Mas nunca vou saber. Passei todos esses dias sem sentir nada, nenhum sintoma além de uma tristeza profunda. Neste momento, a única coisa que me dói no peito e rouba o ar é o coração completamente despedaçado.”

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Cotidiano

Palmares inicia processo de municipalização do trânsito

Agora Palmares dá início ao processo de Integração ao Sistema de Trânsito e Estruturação do Sistema de Mobilidade Urbana de Palmares.

Redação PortalPE10

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(Foto: Reprodução/PortalPE10)

O Prefeito de Palmares, Junior de Beto (PP) recebeu nesta sexta-feira o presidente do Conselho Estadual de Trânsito, Walker Barbosa. Agora Palmares dá início ao processo de Integração ao Sistema de Trânsito e Estruturação do Sistema de Mobilidade Urbana de Palmares.

O momento contou com a presença de vereadores, Secretários Municipais, representantes do Comércio, Agentes de Trânsito e demais autoridades que participaram do pontapé inicial de um dos maiores projetos de mobilidade da cidade.

De acordo com presidente do Conselho Estadual de Trânsito, a municipalização do trânsito significa que a Prefeitura passa a tomar conta dos diversos aspectos, como a fiscalização, educação e engenharia.

O próximo passo é a criação do Sistema Municipal de Trânsito e Transportes e da Junta Administrativa de Recursos de Infrações (Jari), além de instituir o conselho, a diretoria e o fundo que vão administrar, em conjunto, os recursos destinados à área.

Para o prefeito de Palmares, a municipalização também garantirá mais recursos, que serão investidos no trânsito. O processo de municipalização delega os poderes de controle do trânsito ao município, cabendo o mesmo a função de controle, gerenciamento e fiscalização.

Neste primeiro momento será realizado, atividades educacionais com a comunidade civil, incentivando a implantação de uma nova cultura e promovendo o respeito e cumprimento das leis de trânsito; regulamentação de todas as modalidades de transporte, onde será dialogado com os taxistas, mototaxistas e empresas de transportes coletivos, as demandas e necessidades de cada categoria para que se adequem ao novo sistema de trânsito do município; capacitação dos Agentes de Trânsito para que apliquem e façam cumprir a lei com responsabilidade.

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Cotidiano

Bebê morre eletrocutado ao morder fio de carregador na tomada em Pernambuco

Caso está sendo investigado pela polícia.

Redação PortalPE10

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Foto ilustrativa de bebê – (Foto: Pexels)

Um bebê de 8 meses morreu eletrocutado nessa quinta-feira (15) após morder o fio de um carregador de celular que estava na tomada em Araçoiaba, na Região Metropolitana do Recife.

Caso está sendo investigado

De acordo com a Delegacia de Araçoiaba, a criança estava com a mãe em casa quando sofreu o choque. O caso está sendo investigado pela polícia. O Conselho Tutelar também foi acionado. As informações são do NE10.

O corpo do bebê foi encaminhado para ser periciado no Instituto de Medicina Legal (IML) do Recife. O pai do menino foi ao local para reconhecer o corpo.

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Adolescente de 16 anos tenta fugir, mas acaba morto a tiros em bairro de Ribeirão

Crime ocorreu na Rua José Bonifácio, em Ribeirão. Corpo de adolescente foi encaminhado para o IML.

Redação PortalPE10

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(Foto: Reprodução/Internet)

(Foto: Reprodução/Internet)

Um adolescente de 16 anos foi morto a tiros na Rua José Bonifácio, bairro Alto da Cadeia, em Ribeirão, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, na noite de quinta-feira (15).

De acordo com a Polícia Militar, equipes foram acionadas para atender a ocorrência e encontraram a vítima caída com ferimentos causados por disparos de arma de fogo. A vítima identificada por Maurício José Medeiros Barbosa, foi alvejado diversas vezes.

No local do crime, moradores informaram que a vítima teria envolvimento com o tráfico de drogas na região. O corpo de Maurício José foi encaminhado para o Instituto Médico Legal (IML). O caso será investigado pela Polícia Civil da Delegacia de Ribeirão.

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